Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Mãos Cheias de Nada

Retalhos dos meus dias tristes...

Mãos Cheias de Nada

Retalhos dos meus dias tristes...

08.Mar.17

Dia Internacional da Mulher

Longe de ser uma feminista exacerbada, defensora acérrima e destemida dos direitos das mulheres, talvez até por ser apologista de um cavalheirismo hoje quase inexistente, tenho consciência e valorizo a larga conquista que foi feita por muitas mulheres deste mundo. Lutas que nos permitem a nós hoje, contestar e rever preconceitos e limitações que desde sempre foram impostos às mulheres... Reivindicações que nos deram a nós hoje, a liberdade que respiramos e a integridade com que vivemos... 

Muitos movimentos que durante décadas foram (e ainda são em muitos casos) reprimidos até com violência, recusando às mulheres melhores condições de trabalho e igualdade de direitos sociais e políticos, deram-nos inúmeras possibilidades de escolha que até então nos eram negadas.

Hoje esta luta parece-me muito mais discreta e silenciosa, e até mesmo um pouco esquecida, embora se continue a discutir o papel da mulher na sociedade actual, para além do papel quase subalterno de mãe e fada do lar, que ao que parece é aquele que nos assenta que nem uma luva. A verdade é que qualquer mulher por mais bem sucedida que seja, e seja qual for o ordenado que usufrua, só é de facto admirada, se juntamente com isso, for mãe e dona de casa. Mas por aqui a revolução terá que passar também pela mudança da mentalidade feminina, tantas vezes cruel consigo própria e manipuladora com os outros. Sim, passa por deixarmos de olhar com desdém aquelas que conquistaram lugares de destaque, de apontarmos o dedo ao sucesso que atingiram. Passa por deixarmos de procurar as falhas que têm e a “vida vazia” que levam. São escolhas. Escolhas essas que nos foram permitidas por mulheres que sofreram horrores vidas inteiras. 

Mas deixemo-nos de contradições de ah e tal independência, autonomia, igualdade, bla bla bla, e depois exigir que seja ele a tratar da bricolage, do jardim, do carro, simplesmente porque lhe compete a ele, que é homem, fazê-lo. Há que admitir, sim, gosto que um homem me abra a porta, me ajude a carregar os sacos, me dê prioridade nas passagens apenas porque sou mulher, e se puder ser ele a realizar algumas dessas tarefas domésticas ditas masculinas, melhor. Não confundamos as coisas. Lembremos que se trata de uma luta de direitos humanos e não a guerra dos sexos. Lembremos que as mulheres são incríveis e muito capazes. E lembremos daquelas que batalham apenas por um lugar na sociedade...

Contudo, o que a maioria de nós mulheres faz neste dia? Espera ver nas redes sociais uma série de mensagens alusivas ao facto de sermos grandes mulheres, guardamos a esperança que o nosso companheiro se lembre e nos ofereça pelo menos uma flor e depois os restaurantes enchem-se de grupos de mulheres (e desculpem-me a sinceridade, mas aqui viramos mesmo bandos de galinhas carcarejando e emitindo sons demasiado estridentes) e consoante o dia da semana, ainda vamos todas para os copos, porque na verdade, para muitas, este é o único dia no ano que se dão ao luxo de uma noitada sem filhos e sem marido… Não me parece que este fosse o objectivo quando se criou o Dia Internacional da Mulher. É dia de celebração sim, mas mesmo com toda a evolução social e todos os avanços tecnológicos, ainda hoje, existem demasiadas mulheres que sofrem nos locais de trabalho, com salários baixos e horários violentíssimos, descriminações e até humilhações apenas por terem nascido com o sexo errado…Ainda hoje existem demasiadas mulheres por esse mundo fora que não podem estudar, não podem divorciar-se, não podem ter determinadas funções, simplesmente porque são mulheres...

Posto isto, e aproveitando que o Benfica joga (rezemos para que ganhe, já que sempre ouvi dizer que a violência doméstica aumenta sempre que este perde) celebremos este dia, com um jantar ou um simples café com (algumas) mulheres da nossa vida, mas tendo presente que tal só é possível porque foram muitas as mulheres que sofreram para que hoje possamos estar juntas à mesa…

 

 

 

Depoimento do Filme "Human" de Yann Arthus-Bertrand