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Mãos Cheias de Nada

Retalhos dos meus dias tristes...

Mãos Cheias de Nada

Retalhos dos meus dias tristes...

23.Jun.16

Retrospectiva

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Nunca pensei estar aqui. Não sou céptica em relação à psicoterapia. Sempre achei efectivamente que escondermo-nos atrás de ansiolíticos e antidepressivos isso sim, seria um erro. Pelo menos sem antes se entender o que poderá levar um ser humano a estados alarmantes de tristeza, insegurança, ansiedade, sofrimento e mesmo desespero. É doloroso e frustrante perceber que afinal tantas atitudes e comportamentos repetitivos têm uma mesma razão de ser. Que são efectivamente excessivos, causando mais dor e sofrimento do que seria de esperar. A necessidade de valorização através do olhar do outro, o fazer-me sentir necessária, distorceu a minha auto-imagem e a minha identidade perdeu-se, e viver em função dele, do seu bem- estar e da sua satisfação, tornou-se uma vivência diária. E no final percebo que o meu padrão se repete e que a esposa contra a qual sempre lutei – submissa, dona de casa, mãe, triste e de olhos postos no chão – está demasiado interiorizada. De uma forma mascarada, atrás de uma mulher super independente, realizada profissionalmente e sem filhos por opção, mas entre as quatro paredes do lar a projecção do amor é intensa e desequilibrada. E volta o medo da rejeição…

Sei que sou uma mulher inteligente e cresci numa era e numa sociedade em que a mulher é mais do que uma esposa submissa que vive em prol do marido. Talvez por isso tenha a noção de que não era isto que queria para mim. Mas infelizmente corri atrás. Recordo perfeitamente que no final do meu primeiro casamento, sentia uma extrema e estranha necessidade de liberdade. Um simples chegar a casa sem ter de me justificar pela hora ou pelos sítios por onde andei, dava-me um prazer enorme. Recordo ainda de ter assumido que um dos meus grandes erros naquele casamento teria sido o facto de me ter anulado, de ter deixado de viver a minha vida para viver a vida que o meu ex-marido queria (pensava eu!). Certo era que se eu vinha de uma família disfuncional, ele não se ficaria atrás, mas também era óbvio que essa seria a minha escolha.

Hoje olho para o meu actual marido e, apesar de me ter decepcionado, ou não o tivesse eu colocado num pedestal, moldado à minha imagem de homem perfeito, que me amaria demais e dependeria de mim, de certa forma, continuo a acreditar que a minha escolha foi acertada. Não da forma como o tentei esculpir, educar, ensinar, fazer dele um “homem”, mas pelo que ele é na sua essência. Contudo, uma mudança de comportamento e a falta de reciprocidade representou uma ameaça, e como era de esperar, uma recaída. A necessidade de controlar aumentou, o desespero por ajudar e apoiá-lo é desmesurável e os ciúmes exagerados levam à perda de controlo das emoções e das atitudes…volta a tristeza profunda e o enorme sofrimento.

Conhecer-me e entender as causas dos meus comportamentos tornou-se imperativo. Disseram-me para me zangar com a minha mãe, não no sentido literal da palavra, mas de uma forma consciente. A verdade é que levei uma vida a discutir com o meu pai. Fiz-lhe frente muitas vezes, até por ela, quando ele lhe levantou a mão, enquanto o meu irmão permanecia impávido e sereno…A verdade é que levei anos a zangar-me com ele, sem dar conta que aquela que estaria ali para mim em quase tudo, que me encobriu nas saídas, nos namoros, nos cigarros, na primeira pílula que apanhou, afinal de contas, foi quem me passou quase tudo aquilo que sou hoje. Uma mãe que repetiu inúmeras vezes que os homens são como são, que temos que “calar e comer”, e que me mostrou que o amor é isto. Acatar tudo o que o nosso “mais que tudo” faz, assumir que um dia ele irá ser HOMEM e que até lá teremos que ser pacientes e mantermos constantemente a esperança de que o amanhã será melhor. Agradar é preciso, ceder é dever nosso, e com o nosso amor ele irá mudar.

Talvez se a minha mãe um dia se tivesse zangado com o meu pai porque ele se esqueceu do meu aniversário, lhe tivesse mostrado as minhas boas notas, com o orgulho que merecia, lhe tivesse dito que ganhava livros na primária porque era a melhor a português, que no desporto que praticava estava sempre entre as melhores, que tinha tantas capacidades como o meu irmão homem, talvez eu não tivesse tanto esta necessidade de provar que sou capaz e que preciso que me dêem o devido valor.

Sempre achei que o meu lado de maria-rapaz resultava do convívio excessivo com o irmão que admirava, mas agora questiono se esse comportamento não era uma espécie de grito do epiranga! Enquanto menina-mulher os meus comportamentos não seriam aceites, mas como rapaz sim. Desde aguardar por uma pilinha que nunca cresceu, o cabelo sempre curto, as t-shirts, os jeans e os famosos sapatos vela. Futebol, jogo do vitória, bicicleta e skate e o programa de domingo passava muitas vezes por assistir aos jogos de futebol no estádio com o pai.

Descobrir aos 19 anos que afinal tenho uma farta cabeleira com uns caracóis quase perfeitos (têm dias!!) é no mínimo estranho…Não tenho nada contra a homossexualidade, mas felizmente que o meu lado feminino floresceu, distorcido, mas floresceu…porque apesar de tudo gosto de ser mulher.

Talvez se a minha mãe não tivesse levado uma vida a relatar todas as minhas “asneiras” na infância, a lembrar-me  a mim e aos que me rodeiam o quanto era um bebé feio, ao contrário do irmão e dos primos, e o quanto era uma péssima criança, ao contrário dos outros que comigo viviam…

Talvez se não a visse tantas vezes chorar escondida atrás dos tachos e das panelas, e por todos os cantos daquela casa, talvez se ela não me tivesse dito sempre que o pai não podia saber, mas podia gritar sempre que lhe apetecesse, porque era normal...trabalhava muito para nos sustentar...

Talvez se nos momentos em que o meu pai perdia a razão e me dizia as coisas mais estapafúrdias, ela tivesse saltado em minha defesa, fazendo-lhe frente e por uma vez me defendesse…

A verdade é que o medo certeiro de repetir um padrão semelhante ao da minha mãe me atirou exactamente para o mesmo comportamento, ou não representasse ela aquilo que fica entre as tais quatro paredes de um lar e a matriz de vida pela qual passei a reger-me. Sistematicamente procuro o afecto e a aceitação que me faltou neste lar. Não fui bem sucedida na minha infância e por isso repetido tudo até à exaustão…tento sempre de novo, e de novo espero que respondam com afecto às minhas necessidades, porque há que ter esperança que um dia deixarei de ser uma eterna insatisfeita.

 

Mas pelo menos hoje sei que assumi um compromisso e que quero definitivamente romper com os meus padrões de relacionamento destrutivos, com estes pensamentos obsessivos e sombrios. Encontrar a minha essência e sem a expectativa de que os outros vão gostar e dar valor. É fundamental tirar a “palas” dos olhos e compreender que há muito mais para além desta angústia constante. Nos meus dias bons isto é muito gratificante…

E com tudo isto estou cansada. Exausta diria…mas não o suficiente para desistir.